Posts in Filosofia

Entre Crença e Saber: Notas Sobre a Função Psíquica da Ideia de Deus em Jung

Por Márcio N. de Abreu – 03 de maio de 2026

O ano é 1959. Em sua casa, em Zurique, Carl Gustav Jung concede uma entrevista ao jornalista John Freeman para o programa Face to Face. Ao longo da conversa, Jung relembra a infância como filho de um pastor protestante, as idas à igreja aos domingos e a crença em Deus quando criança. Em determinado momento, Freeman faz a pergunta que marcaria a entrevista: “você acredita em Deus agora?”. Jung pausa, reflete por alguns segundos e diz: “É difícil de responder. Eu sei. Eu não preciso acreditar — eu sei”.

A resposta de Jung não é apenas provocativa. Ela é, antes de tudo, estranha. Estranha porque não vem de forma direta. Antes de afirmar que “sabe”, Jung hesita. E essa hesitação talvez diga mais do que a própria resposta.

Se ele sabe, por que é difícil responder?

A dificuldade, nesse caso, não parece ser a de quem duvida, mas a de quem reconhece que a pergunta não pode ser respondida nos termos em que foi feita. Ao perguntar se Jung acredita em Deus “agora”, John Freeman parece supor uma continuidade entre a crença do menino e a posição do adulto. Mas essa continuidade é problemática. Talvez por isso, Jung reposiciona o problema: ele não precisa acreditar — ele sabe. E falar em saber não é o mesmo que falar em crença.

Mas o que poderia significar “saber” nesse contexto?

Uma primeira possibilidade seria tomar essa afirmação em sentido forte: como se Jung estivesse reivindicando um tipo de conhecimento sobre Deus — não uma crença, mas uma certeza. Nesse caso, sua resposta soaria como uma afirmação de ordem metafísica, ainda que formulada de maneira pouco convencional.

Mas essa leitura rapidamente encontra dificuldades. Que tipo de conhecimento seria esse? Não parece tratar-se de um saber empírico, verificável diretamente. Tampouco se apresenta como adesão a uma doutrina religiosa específica. O “saber” de Jung parece escapar às formas mais familiares de conhecimento.

Um caminho possível seria recorrer às grandes tradições espirituais e filosóficas da humanidade — como o Vedanta, o Budismo e o Cristianismo, entre outras. Apesar de suas diferenças culturais e linguísticas, muitas delas convergem na ideia de que o ser humano participa de uma dimensão que o transcende, como se estivesse situado entre o mundo material e uma ordem mais ampla de sentido. Essa convergência poderia ser tomada como um indício de que a experiência humana aponta para algo além de si mesma — algo que poderíamos chamar de “Deus”.

No entanto, embora Jung dialogue diretamente com essas tradições, há razões para supor que o seu “saber” não se apoia nesse tipo de argumento.

Talvez, então, seja preciso deslocar o problema. Em vez de perguntar se Jung conhece Deus, poderíamos perguntar como algo como Deus se apresenta à experiência. Nesse caso, o “saber” não designaria uma verdade demonstrável nem o resultado de um raciocínio a partir da convergência entre tradições, mas um tipo de evidência vivida — algo que não se prova, mas que, ainda assim, se impõe como experiência.

Mas essa alternativa também não resolve completamente a questão. Pois, se aquilo que se impõe é uma experiência, em que sentido isso autoriza a falar em “Deus”? Estaríamos diante de uma realidade que transcende o sujeito ou de uma forma recorrente de organização da psique humana? A resposta de Jung parece oscilar precisamente nesse ponto. E talvez seja essa oscilação — entre uma afirmação que soa metafísica e uma descrição que pode ser lida como psicológica — que torna sua resposta tão difícil de situar e, ao mesmo tempo, tão fértil.

Talvez seja nesse ponto que a posição de Jung revele toda a sua singularidade. Talvez, para Jung, o que está em jogo não é primeiramente saber se Deus existe como realidade metafísica ou como algo diretamente verificável, mas reconhecer que a experiência de Deus — a despeito dos significados a ela atribuídos — exerce uma função estruturante na vida psíquica.

Nesse sentido, a questão de Deus não desaparece quando é negada. Ela se transforma. A recusa da transcendência não elimina a demanda por sentido, unidade e orientação; antes, a reinscreve em outros registros. Aquilo que, em um contexto religioso, se expressa como relação com o divino, pode, em outro, assumir a forma de compromisso com a verdade científica, de fidelidade a um ideal ético ou mesmo de confronto lúcido com o absurdo da existência. Dito de outra maneira, a crença ou descrença em Deus pode ser compreendida como resposta a uma mesma exigência psíquica: a de organizar nossa experiência existencial em torno de um eixo de sentido.

Pode-se dizer, então, que a força da resposta de Jung — “eu não preciso acreditar, eu sei” — não reside em oferecer uma solução para o problema de Deus, mas em deslocá-lo de tal modo que a própria oposição entre crença e descrença se torne insuficiente. O que está em jogo não é apenas o que pensamos sobre Deus, mas a maneira como a própria ideia de Deus participa da organização do sentido da existência. Sendo assim, afirmado, negado ou transformado, Deus continua a existir como um princípio organizador da experiência humana.

Referências

Corrêa, J. & Hohenheim, H. V. (2026). A filosofia do espírito: de Plotino, a Schelling e Hegel. Editora Hegel.

Dusty Archiver (11 de maio de 2024). Carl Jung: Face to Face – 1959 Interview (Colorized & Remastered) [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=y0p1ITcGtKI

Carvalho, R. (2026). A Autoridade antropológica da Tradição e a crise das concepções de ser humano na contemporaneidade. Texto compartilhado como material de apoio do curso de extensão Filosofia para Psicólogos: Um Retorno ao Ser Humano Integral, ministrado pelo Prof. Dr. Ronald Carvalho.

A Duração como Tempo da Alma: Contribuições Bergsonianas para a Elaboração do Sofrimento Psíquico

Por Márcio N. de Abreu – 12 de junho de 2025

O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar. Eu aqui isolado, onde nada é perdoado, vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar.– Raul Seixas –

É comum que pacientes em sofrimento psíquico — sobretudo os que iniciam seu trabalho com a psicologia profunda — perguntem aos seus analistas quanto tempo levará até sentirem os efeitos terapêuticos da análise. Quase sempre, a expectativa resulta da esperança ingênua de se voltar a um estado anterior, no qual as demandas do Self ainda não haviam adquirido urgência suficiente para irromper as guardas do Ego.

Além do desejo compreensível de por fim ao sofrimento, essa expectativa de melhora rápida está intimamente ligada ao contexto cultural em que vivemos e à maneira como compreendemos e lidamos com o tempo. A lógica utilitarista e mecanicista herdada da modernidade ganhou ainda mais tração com os adventos tecnológicos na contemporaneidade. No que diz respeito ao tempo, talvez nunca tenhamos estado tão desconectados de sua dimensão simbólica: vivemos não apenas em constante busca por resultados, mas obcecados em alcançá-los no mais curto espaço de tempo possível. Assim, para o desavisado que procura na terapia profunda uma solução imediata para sua angústia, importa menos compreender o sentido da dor do que saber quantas sessões serão necessárias para “voltar a ficar bem”.

Para a psicologia junguiana, tal ocasião representa uma janela de oportunidade: se bem aproveitada, permite que o analista lance alguma luz sobre o caminho que se abre diante do paciente, encorajando-o a iniciar sua jornada — muitas vezes apavorante — no tempo próprio do Self, que não obedece ao compasso dos relógios.

A noção de que existe um tempo que escapa ao movimento dos ponteiros não é algo alheio à cultura ocidental. Na Europa, essa ideia já estava presente em pensadores como Heráclito, Plotino e Santo Agostinho, embora tenha sido ofuscada pela racionalidade técnico-científica da modernidade. Nesse contexto, cabe ao filósofo Henri Bergson o crédito por recuperar e ampliar a ideia de um tempo interior, não linear, vivido como um fluxo contínuo da experiência para além da sua dimensão física. Segundo Bergson, existem dois tipos de tempo: o tempo mensurado e o tempo vivido, sendo o primeiro o tempo cronológico, medido em segundos, horas, dias, meses, anos… — o mesmo a que se refere o paciente cuja angústia o leva a querer saber de antemão quando começará a sentir uma suposta “melhora”.

No entanto, para Bergson, o tempo mensurado só existe como efeito das ferramentas criadas para medi-lo, sejam elas materiais, como um relógio ou uma ampulheta, ou conceituais, como os minutos e as horas. Embora útil para planejar e organizar nossas vidas, o tempo mensurado não é o tempo em si, mas apenas uma invenção humana que nos ajuda a dar sentido a certos aspectos da existência. Em contraponto, o tempo vivido consiste no próprio fluxo da experiência, sendo este um fenômeno puramente qualitativo e subjetivo, que precede qualquer quantificação. A este fenômeno Bergson deu nome de duração.

Pela perspectiva bergsoniana, os dados da nossa experiência interna, ao serem desvencilhados das ferramentas materiais e conceituais que usamos para nos expressar, emergem como aquilo que verdadeiramente são: pura qualidade e mutação contínua. Dessa maneira, o tempo em Bergson — ou a duração — deixa de ser uma sucessão de instantes mensuráveis para ser compreendido como o fluir incessante do passado, que absorve o porvir e se expande silenciosamente enquanto avança. Assim, presente e passado não se seguem como etapas distintas, mas coexistem em fluxo contínuo. Nas palavras de Bergson: “Quando pensamos esse presente como devendo existir, ele ainda não existe; e, quando o pensamos como existente, ele já passou”. O presente nada mais é que o limiar entre o que ainda não é e o que já foi.

Para o paciente em sofrimento psíquico, a possibilidade de ressignificar sua relação com o tempo com base nos termos bergsonianos representa uma mudança de paradigma na compreensão do processo de análise. Contudo, essa ressignificação exige a coragem de aceitar que não existe um estado psíquico anterior ao qual seja possível retornar. Nesse sentido, o tempo do Self — que é também o tempo da individuação — coincide com a própria duração. É na duração pura que nos imergimos quando nos voltamos ao núcleo mais íntimo das nossas experiências — aquele ponto menos tocado pela razão. Ali, o passado nunca está concluído: ele se prolonga continuamente, sendo alimentado, instante a instante, por um presente que sempre se renova.

Apesar de não haver indícios de que Jung tenha sido influenciado diretamente por Bergson — e vice-versa —, é interessante notar a afinidade epistemológica entre ambos. Como um exercício de reflexão, a teoria de Bergson sobre o tempo pode ser usada para fundamentar a articulação entre os principais conceitos da teoria junguiana e o próprio processo de análise. Para Bergson, o passado, ao se conservar por si mesmo, nos acompanha por inteiro: carregamos em nós tanto a nossa história vivida quanto o élan vital que precede nossa existência pessoal. Contudo a maior parte desse passado permanece oculto, como uma espécie de “memória pura” em estado virtual, pronto para alcançar a consciência na medida em que pode ajudar a compreensão do presente ou a previsão do porvir.

Com as devidas ressalvas, pode-se argumentar que a ideia de um passado oculto e latente, que remete tanto à nossa história individual quanto a algo suprapessoal que impulsiona a evolução e a criação, é certamente compatível com os conceitos junguianos de inconsciente pessoal e coletivo, bem como do próprio Self. Mas isso não é tudo. Segundo o filósofo, é por meio de ímpetos e tendências que esse passado se manifesta, sendo as necessidades da ação aquilo que orienta o fragmento de passado que será evocado e cuja emersão na consciência tem como fim lançar luz sobre a situação atual.

O paralelo com a análise junguiana se evidencia na medida em que o contato do paciente com os conteúdos do inconsciente pessoal, assim como com as imagens arquetípicas que expressam as potencialidades do inconsciente coletivo, conecta sua experiência presente a uma temporalidade psíquica não linear e que está além da sua história individual. Nesse sentido, o conceito de duração de Bergson pode ser relacionado ao termo grego Aión, que se refere a uma dimensão de tempo eterno, adotado por Jung como representação de uma a temporalidade da psique arquetípica — o tempo da alma, da transformação profunda e coletiva do inconsciente.

Por outro lado, Bergson ainda afirma que é necessário à pessoa adotar uma disposição interior adequada para apreender e acolher o passado que transita do virtual ao atual e emerge na consciência. E aqui reside a janela de oportunidade que permite ao analista exercer seu papel de guia nos labirintos do Aión — aquele que irá ajudar ao paciente a desenvolver a disposição e a coragem necessários para o salto do tempo mensurado à duração, e que possui a responsabilidade de segurar o fio de Ariadne que o mantem ligado ao presente.

Tanto para Bergson quanto para Jung, o passado não é algo que deixamos para trás, mas uma força ativa que se inscreve em nossos impulsos, escolhas e gestos cotidianos. Tampouco ele se trata de um estado anterior ao qual podemos retornar, visto que, por ser duração, ele sempre permanece, embora continuamente transformado no instante atual que a ele se acrescenta como presente. O ser consiste, portanto, em transformação contínua — ele se constitui pela mudança, pela diferença e pela variação constante. Ser é não permanecer idêntico a si próprio, é ser duração. Existir no tempo significa precisamente isso: estar em permanente processo de diferenciação em relação a si mesmo.

Referências

Bergson, H. (1999). Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes.

Bergson, H. (2006). Duração e simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes.

Bittencourt, R. N. (2011). Um dilema pré-socrático: a natureza do tempo em Anaximandro e Heráclito. NEARCO, 4(1), 137-150.

Gurgel, A. (2012). A coexistência entre passado e presente na duração de Henri Bergson. Revista Eletrônica Espaço Teológico, 6(9), 74-84.

Jung, C. G. (2016). OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2015). OC 9/2 Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Naffah Neto, A. O inconsciente como potência subversiva. São Paulo: Escuta.

Nascimento, S. F. (2019). Eternidade e tempo: Plotino e Agostinho. Argumentos, n. 22, 152-161.