Posts in Integração dos Opostos

Entre o Masculino e o Feminino: A Androginia como Imagem Arquetípica

≈ Por Márcio N./ de Abreu – 17 de fevereiro de 2025

Antes que me acusem de reafirmar o binarismo de gênero, iniciarei este texto fazendo três ressalvas. Em primeiro lugar, uma discussão séria sobre os fundamentos da distinção científica entre machos e fêmeas deve considerar as implicações ontogenéticas dos aspectos cromossômicos, gonadais e fenotípicos que sustentam essa diferenciação. A distinção dos seres humanos entre pessoas do sexo masculino e feminino não é apenas uma convenção social. Apesar dessa diferenciação não ser sempre rígida ou absoluta, os fatores genéticos, hormonais e físicos que a sustentam influenciam diretamente o desenvolvimento humano.

Em segundo lugar, os desdobramentos culturais dessa distinção refletem uma organização simbólica das sociedades humanas que se desenvolveu em um contexto de relativa estabilidade e previsibilidade desses aspectos, principalmente o fenotípico — embora este esteja intrinsecamente relacionado aos dois primeiros (o cromossômico e o gonadal). Em outras palavras, a binaridade sexual, no seu sentido mais amplo, não é um conceito exclusivamente científico, visto que a percepção de que os seres humanos costumam nascer como machos ou fêmeas, e que isso implica em certas convenções sociais, é algo que perpassa todas as culturas humanas.

Por fim, reconhecer essa estabilidade biológica e suas repercussões sociais não significa invisibilizar aqueles cuja constituição fisiológica e/ou psíquica não se ajusta perfeitamente a tais parâmetros. Isso se aplica tanto à biologia — como no caso das pessoas intersexo — quanto às construções culturais sobre gênero, onde diferentes expressões de transgeneridade podem ser historicamente observadas em diferentes sociedades, não apenas nas ocidentais.

Isto posto, atentarei ao aspecto da cultura humana que serve de subsídio interpretativo para a psicologia analítica: os mitos. Comecemos por reconhecer que a presença de divindades que representam a fusão de aspectos masculinos e femininos é algo presente em praticamente todas as grandes tradições mitológicas — qualquer bom junguiano deveria ser capaz de citar ao menos um mito que comprove esta afirmação. Trago alguns exemplos: Ardhanarishvara (mitologia hindu): simboliza a fusão do masculino e do feminino em um único ser, representando a complementaridade e a interdependência dos gêneros, além da unidade primordial da existência; Ometéotl (mitologia asteca): divindade criadora do universo e a combinação das essências masculina (Ometecuhtli) e feminina (Omecihuatl), representando a dualidade presente em todas as coisas e a união de opostos complementares; Oxumarê (mitologia iorubá): orixá associado à renovação e ao ciclo da vida, é descrito em algumas tradições como alternando entre aspectos masculinos e femininos em ciclos de tempo, simbolizando a dualidade e a transformação.

As divindades acima — dentre tantas outras que poderiam ser citadas — possuem em comum não apenas a fusão do masculino e feminino em um único ser, mas também a união e a interdependência desses opostos como princípio arquetípico fundamental para a estabilidade dinâmica da própria existência (Oxumarê, por exemplo, costuma ser representado como uma grande serpente que sustenta o equilíbrio do mundo, garantindo sua continuidade).

Essa dinâmica também está presente no nível individual, na medida em que a integração de animus (princípio masculino) e anima (princípio feminino) é fundamental para a realização do self — arquétipo central da psique e princípio organizador da personalidade. Por essa perspectiva, o self pode ser visto como um reflexo do cosmos dentro da psique; uma manifestação microcósmica da totalidade do universo, razão pela qual Jung frequentemente o comparava a imagens de totalidade encontradas em diversas tradições religiosas e filosóficas, como o Atman no hinduísmo, o conceito alquímico da pedra filosofal ou a ideia de imago Dei (imagem de Deus) no cristianismo.

Sugeri em texto anterior que substituíssemos os termos masculino e feminino pelos conceito de animus e anima, como forma de evitar que tais discussões assumissem conotações ideologicamente carregadas. Contudo, é também necessário reconhecermos que a distinção entre masculino e feminino é uma constante antropológica, presente em praticamente todas as culturas conhecidas — algo relacionado ao fato de que a maioria dos seres humanos nasce com características sexuais que podem ser classificadas como masculinas ou femininas.

Isso também significa que, enquanto a ontologia que estrutura nossas concepções de gênero for baseada na polaridade masculino-feminino, qualquer identidade que busque se afastar dessas categorias ainda precisará referenciar-se nelas, mesmo que seja para negá-las ou subvertê-las. Estamos, assim, diante de um paradoxo: a tentativa de escapar do binário de gênero acaba reafirmando sua existência, pois a própria ideia de “não conformidade” só faz sentido dentro de uma estrutura que define previamente aquilo do qual se está se desviando.

A mitologia universal — entendida aqui como expressão de um inconsciente coletivo — aponta um caminho alternativo. O tema da integração dos opostos, quando analisado sob a luz da psicologia analítica, indica que a fusão do masculino e feminino enquanto princípio arquetípico não implica a anulação de suas diferenças, mas sim a capacidade de coexistir com essas tensões de forma criativa.

O desafio, portanto, não está em negar ou eliminar essa distinção, mas em permitir que ambas as forças dialoguem na construção de identidades que reconheçam sua interdependência, abrindo espaço para formas mais integradas e plenas de existência humana.

Referências

Brandt, K. A. (2023). The multiple meanings of sex. MDedge. https://www.mdedge.com/obgyn/article/266405/transgender-health/multiple-meanings-sex

Jung, C. G. (2011). OC 12 Psicologia e alquimia [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2013). OC 11 Psicologia e religião: ocidental e oriental [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2015). OC 9/2 Aion: estudo sobre o simbolismo do si mesmo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2016). OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Ridgeway, C. L.; Correl, S. J. (2004). Unpacking the gender system: a theoretical perspective on gender beliefs and social relations. Gender & Society, 18(4), 510-531.

Scott, J. W. (1986). Gender: A Useful Category of Historical Analysis. The American Historical Review, 91(5), 1053-1075.

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Mal-entendidos Contemporâneos: A Psicologia Analítica Diante das Novas Leituras de Gênero

≈ Por Márcio N. de Abreu – 30 de janeiro de 2025

Em tempos de contestações acaloradas sobre o binarismo tradicional nas concepções de sexo e gênero, a noção junguiana de que a psique humana é constituída por princípios masculinos e femininos passou a ser considerada uma heresia. A veemência com que certos grupos passaram a repudiar essa ideia deve-se, em grande parte, ao desconhecimento acerca do significado atribuído a determinados termos na psicologia analítica. Assim, é fundamental esclarecer que, pela perspectiva junguiana, ao falarmos em “masculino” ou “feminino”, não nos referimos a características inerentes e definidoras do que significa ser homem ou mulher como categorias biológicas ou sociais, mas sim a qualidades psicológicas que, além de complementares, são comuns a todas as pessoas, independentemente de como se classifiquem quanto ao seu gênero ou sexo.

Uma forma de atenuar as tensões que permeiam esse debate — e, com isso, favorecer uma maior abertura ao tema — é deslocar o foco dos termos “masculino” e “feminino”, carregados de conotações ideológicas, para os conceitos de animus e anima. Esse deslocamento nos permite traçar uma breve genealogia que nos ajude a compreender, ainda que parcialmente, como esses conceitos estão relacionados na teoria de Jung.

Tanto animus quanto anima derivam da mesma raiz protoindo-europeia, reconstruída como ane, que significa “respirar” — não apenas como um fenômeno fisiológico involuntário, mas como a própria fonte ou princípio da vida. Apesar de compartilharem uma origem comum, seus significados específicos se diferenciaram ao longo do tempo. Enquanto anima manteve uma conexão mais direta com o conceito de “alma” — ou o “sopro vital” que anima o corpo —, animus passou a estar associado a um princípio pensante, associado à consciência, ao intelecto e à vontade.

No contexto das concepções fundamentais da cultura latina, bem como das tradições filosóficas e espirituais subsequentes, animus e anima podem ser relacionados ao conceito de corpus para expressar as interrelações entre as dimensões mentais, emocionais, espirituais e materiais da experiência humana. Na filosofia latina e medieval, especialmente sob a influência de autores como Cícero (106 – 43 a.C.), Santo Agostinho (354 – 430) e Tomás de Aquino (1225 – 1274), anima, animus e corpus eram frequentemente vistos como complementares, mas distintos: o corpus, entendido como o corpo físico cuja vitalidade depende da anima, que anima a matéria, e que, por sua vez, expressa as capacidades intelectuais e volitivas associadas ao animus.

A raiz comum de animus e anima sugere a constituição de uma essência vital que imbui os corpos humanos de vida e direciona essa vida por meio da integração das dimensões racionais, espirituais e emocionais, refletindo seus influxos complementares para além das distinções sexuais. Embora esses conceitos tenham sido respectivamente reinterpretados por Jung como princípios “masculinos” e “femininos” no inconsciente, ele preservou a ideia de complementaridade ao reconhecer a psique humana como andrógina. Para Jung, a psique não possui características exclusivamente femininas ou masculinas, mas é um sistema integrado que inclui em sua totalidade os conjuntos de capacidades e forças de animus e anima. Jung não via animus e anima como características exclusivas de um sexo, mas sim como princípios arquetípicos que emergem na psique individual de maneira diferenciada.

Por outro lado, essa diferenciação se baseia em processos psicossociais que moldam a identidade de gênero e a construção do eu. Ao longo da história, valores culturais influenciaram a socialização de meninos e meninas de maneiras distintas, reforçando a associação entre predisposições psicológicas e os papéis de gênero. Embora essas predisposições sejam comuns a ambos, elas passaram a ser interpretadas como características intrínsecas e exclusivas de homens e mulheres. Isso, por sua vez, influencia a forma como características inconscientes são projetadas: os homens, ao reprimirem ou negarem sua dimensão emocional e intuitiva, podem projetar sua anima em figuras femininas externas, ao passo que as mulheres, ao reprimirem ou negarem sua assertividade e racionalidade, podem projetar seu animus em figuras masculinas.

Por essa perspectiva, a associação do animus ao masculino e da anima ao feminino não é necessariamente essencialista, mas sim uma consequência de um longo processo histórico e cultural que moldou a forma como as diferenças sexuais são simbolicamente representadas. Na psicologia junguiana, esses conceitos não são fixos, mas podem ser integrados ao longo do desenvolvimento psíquico, permitindo que os indivíduos transcendam as dicotomias tradicionais e alcancem um equilíbrio entre racionalidade e intuição, atividade e passividade, estrutura e fluidez.

Por fim, essas considerações não encerram a discussão. Ainda há muito a ser explorado sobre as relações entre aspectos biológicos, psíquicos e sociais que explicam por que certas qualidades, denominadas “masculinas” e “femininas”, costumam ser simbolicamente associadas a homens e mulheres, respectivamente. No entanto, esse é um tema para outro momento.

Referências

Harper, D. Online etymology dictionary, 2024. Disponível em: https://www.etymonline.com.

Rezende, A. M.; Bianchet, S. B. Dicionário do latim essencial. Belo Horizonte | São Paulo: Autêntica, 2014.

Cícero, M. T. Discussões tusculanas. Uberlândia: EDUFU, 2014.

Agostinho, S. A alma e sua origem, 2018. Disponível em:

https://www.valde.com.br/public/fileadmin/user_upload/A-alma-e-sua-origem_-Santo-Agostinho.pdf.

Aquino, S. T. Suma Teológica, 1936. Disponível em:

https://alexandriacatolica.blogspot.com/search/label/S.%20Tomas%20de%20Aquino.

Jung, C. G. OC 9/2 Aion: estudo sobre o simbolismo do si mesmo. Petrópolis: Vozes, 2015.

Jung, C. G. OC 6 Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2015.

Jung, C. G. OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.