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A Gênese Arquetípica do Conhecimento: Quando Jung Explica Valsiner

≈ Por Márcio N. de Abreu – 9 de novembro de 2025

Algumas teorias não derivam de processos estritamente racionais ou da evolução lógica de teorias anteriores, mas emergem de imagens primordiais que brotam do inconsciente e se objetivam sob a forma de ideias científicas. Esse é um dos argumentos centrais de Jung em Psicologia do Inconsciente (OC 7/1). Para ilustrá-lo, Jung descreve o caso do médico alemão Robert Mayer, um dos fundadores da termodinâmica e responsável pela ideia seminal que deu origem à teoria física da conservação de energia, segundo a qual a energia não se perde, mas se transforma de uma forma em outra.

Segundo Jung — citando uma carta escrita pelo próprio Mayer —, a ideia teria se apossado do médico de maneira avassaladora durante uma viagem de navio, levando-o a trabalhar incessantemente, permanecendo a bordo e, assim, deixando de desfrutar as paisagens exóticas do arquipélago indonésio.

É preciso reconhecer que Jung descreve o episódio de modo anedótico — e o mesmo pode ser dito sobre a carta escrita por Mayer —, talvez como um recurso simbólico para mostrar o caráter visionário da experiência criadora. Por outro lado, essa abordagem tende a obscurecer alguns detalhes históricos importantes, como o fato de que o insight de Mayer surgiu a partir de suas observações médicas. Com base na constatação fisiológica de que, em climas quentes, o corpo humano precisa queimar menos oxigênio para manter a temperatura corporal — razão pela qual o sangue dos marinheiros nas regiões tropicais era mais vermelho vivo do que o dos europeus nas regiões frias —, Mayer intuiu que o calor e o movimento são expressões de uma mesma força presente em tudo: a energia, que não pode ser criada ou destruída, apenas muda de forma.

Certamente, uma nota de rodapé teria ajudado o leitor a perceber com maior clareza a conexão que Jung estabelece entre o insight de Mayer e o pensamento dinamístico, ou seja, a crença de que tudo o que existe está impregnado de uma força ou energia vital invisível, que pode ser acumulada, transferida ou manipulada por meio de ritos, palavras ou gestos — a exemplo do mana, em algumas culturas polinésias, ou do axé (àṣẹ) na cultura iorubá. Em outras palavras, embora ciência e religiosidade sejam comumente tratadas como polos opostos, tanto o insight de Mayer quanto o pensamento dinamístico compartilham em sua origem o mesmo motivo arquetípico.

Comparação semelhante pode ser feita em relação à maneira pela qual a Psicologia Cultural Semiótica explica como os indivíduos interpretam e dão sentido às suas experiências. Ao refletir sobre suas próprias impressões diante de obras de arte e paisagens, Jaan Valsiner percebeu que, embora o sentido dessas experiências parecesse transbordar qualquer forma conceitual ou possibilidade de descrição, elas despertavam ao mesmo tempo a necessidade de uma ordenação simbólica para que pudessem ser comunicadas. A partir dessa constatação, Valsiner intuiu que tal dinâmica não se restringe ao domínio estético, mas é constitutiva de todo processo humano de significação da realidade. Para Valsiner, a construção de sentido envolve dois movimentos complementares e interdependentes: a pleromatização e a esquematização. O primeiro corresponde a um estado de experiência em que o vivido transborda os limites da linguagem — uma sensação de totalidade, indeterminação e excesso de sentido —, enquanto o segundo representa o esforço de organizar esse excesso em formas simbólicas compartilháveis, transformando a vivência em signo.

Certamente, o leitor familiarizado com a teoria junguiana será tentado a aproximar os conceitos valsinerianos de pleromatização e esquematização dos princípios de anima e animus. Interpretar a pleromatização como o pano de fundo indiferenciado e gerador da experiência — um campo de potencialidade e intensidade afetiva anterior à diferenciação simbólica — alinha-se bem ao caos no sentido arquetípico que Jung atribui à anima: a fonte fluida e mediadora da criatividade, da emoção e da transformação, que conecta o ego ao inconsciente. De modo complementar, a esquematização, enquanto expressão das formas simbólicas que conferem coerência e inteligibilidade à experiência, pode ser compreendida como o princípio da ordem, paralelo ao animus em sua função estruturante e orientada para o logos, responsável por articular, interpretar e estabilizar o significado.

Contudo, essa comparação deve ser entendida apenas em sentido metafórico, e não conceitual — o que nos conduz ao ponto central deste texto. Assim como o insight de Mayer foi desencadeado pela observação dos tons de vermelho no sangue dos marinheiros — levando-o de uma constatação fisiológica a uma lei geral da física —, Valsiner chegou à sua formulação teórica não por meio de dedução lógica, mas pela observação de experiências estéticas e emocionais que o afetaram profundamente. Foi a partir delas que ele intuiu que toda experiência humana de significação obedece a um padrão de oscilação entre dois movimentos complementares.

Em ambos os casos, aquilo que se objetiva na forma de uma ideia científica traz em seu núcleo um potencial latente — uma força que pode se manifestar para além da própria ciência — e que, justamente por ser supracultural e supra-epistêmica, revela algo universalmente humano.

Referências

Beyers, J. (2010). What is religion? An African understanding. HTS Teologiese Studies/Theological Studies, 66(1), 1-8.

Jung, C. G. (2013). OC 7/1 Psicologia do inconsciente [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Kemple, S. H.; Lehmann, O. (2021). Pleromatization: bringing cultural psychology closer to human experience. In B. Wagoner; B. A. Christensen; C. Demuth (Eds). Culture as process: a tribute to Jaan Valsiner. Switzerland: Springer Nature, pp. 243-250.

Martins, R. A. (1984). Mayer e a conservação de energia. Cadernos de História e Filosofia da Ciência, (6), 63-84.

Valsiner, J. (2014). An invitation to cultural psychology. London: Sage.

Tragam-me a Cabeça de João Batista: Quando o Feminino toma a Palavra e o Poder

Por Márcio N. de Abreu – 25 de abril de 2025

“Tragam-me a cabeça de João Batista em uma bandeja de prata!” — esse foi o pedido feito por Salomé, por insistência de sua mãe, ao rei Herodes Antipas, que ordenou a decapitação do profeta por volta do ano 27 d.C. Segundo o Antigo Testamento, mais de mil anos antes da morte de Batista, a queneia Jael, com uma estaca e um martelo, rachou o crânio de Sísera, comandante das tropas do rei Jabim de Canaã, libertando os israelitas após vinte anos de opressão. Já no texto deuterocanônico O Livro de Judite, a heroína homônima, para salvar seu povo sitiado pelos assírios, seduz o general Holofernes e o decapita com sua própria espada, após ele adormecer embriagado. De acordo com Heródoto — considerado o “pai da história”, embora suas narrativas frequentemente se aproximem do mítico —, em uma das versões sobre a morte do imperador persa Ciro, o Grande, a rainha Tômiris decapita seu cadáver após a batalha contra os masságetas e mergulha sua cabeça em um odre cheio de sangue humano.

Além do fato de terem suas cabeças extirpadas, as personagens masculinas nas histórias acima possuem em comum o fato de representarem autoridade e prepotência. E ainda que se possa argumentar que João Batista se diferencia dos demais por estar do lado dos “virtuosos”, isso não anula a autoridade espiritual que derivava do seu carisma profético, nem sua prepotência moral, característica de líderes religiosos — lembremos que ele foi decapitado por criticar e condenar publicamente o casamento de Herodes com Herodíade (mãe de Salomé) considerado ilícito segundo a Lei Mosaica. Nesse caso específico, podemos dizer que o poder masculino é subvertido contra si mesmo pela influência e astúcia feminina.

A extirpação da cabeça de uma figura masculina poderosa por uma personagem que simboliza a astúcia e o poder feminino é uma imagem que também aparece em mitos hindus. A deusa Durga, por exemplo, derrota o demônio búfalo Mahishasura perfurando-o com seu tridente e decapitando-o em seguida. Se, por um lado, Durga representa a encarnação do feminino e da energia criativa, por outro, Mahishasura pode ser interpretado como a personificação do ego inflado, do orgulho, da força bruta e da recusa de limites.

Ainda na tradição hindu, a deusa Kali decapita o demônio Raktabija e bebe seu sangue para impedir sua regeneração. A principal característica de Raktabija é a capacidade de multiplicar-se: cada gota de seu sangue que tocasse o solo dava origem a outro demônio. Kali, por sua vez, é considerada a contraparte feminina de Shiva e representa a destruição ativa — o poder em ação. Ao decapitar Raktabija e beber seu sangue antes que este atinja o chão, Kali encarna o arquétipo do feminino em sua potência destrutiva, enfrentando um masculino que se multiplica indefinidamente. Visualmente, Kali costuma ser representada coberta de sangue, adornada com serpentes e usando um colar de crânios.

Em uma entrevista concedida em 1977, Marie-Louise von Franz foi questionada sobre a forma como as mulheres têm sido afetadas psicologicamente pela rejeição do feminino. Em sua resposta, ela aponta um impulsionamento psíquico das mulheres em direção ao animus, como um mecanismo de compensação diante da ausência de autoconfiança em sua própria feminilidade. Com isso, a mulheres teriam passado a se comportar “masculinamente” em busca de reconhecimento social em sociedades marcadas por um complexo patriarcal desequilibrado. No entanto, von Franz enfatiza que a supressão do feminino não é exercida apenas pelo “homem exterior”, mas principalmente pelo animus, ou seja, pelo aspecto masculino inconsciente na psique feminina. Assim, ela argumenta que o caminho para a libertação das mulheres seria “tirar o animus do caminho”. Do ponto de vista coletivo, isso se daria na construção de uma sociedade “contra o animus” (nesse caso, contra um animus excessivo e destrutivo) e não necessariamente “contra os homens”.

Estando o animus relacionado a um princípio pensante, associado à razão e ao intelecto, faz sentido supor que as histórias e mitos em que personagens femininas derrotam figuras masculinas de poder e autoridade extirpando suas cabeças remetem a um mesmo motivo arquetípico: a destituição de um animus excessivo e destrutivo pela força da anima.

Com isso, a recorrência dessas imagens sugere mais do que um ato de violência ou subversão isolada. Trata-se da dramatização simbólica de um confronto arquetípico entre forças psíquicas: o feminino que, ao invés de se submeter ao domínio do animus, o enfrenta e o transforma. Em vez de representar um embate entre os sexos, essas narrativas indicam um processo interno de reintegração, no qual a anima, ao assumir sua potência, confronta e reorganiza o desequilíbrio instaurado por um animus inflado. Nesse sentido, o gesto de decapitar não é apenas destruição, mas também uma forma de cura simbólica: uma exigência psíquica de reequilíbrio, onde o reconhecimento da potência do feminino é condição para a restauração da totalidade.

Entre o Masculino e o Feminino: A Androginia como Imagem Arquetípica

≈ Por Márcio N./ de Abreu – 17 de fevereiro de 2025

Antes que me acusem de reafirmar o binarismo de gênero, iniciarei este texto fazendo três ressalvas. Em primeiro lugar, uma discussão séria sobre os fundamentos da distinção científica entre machos e fêmeas deve considerar as implicações ontogenéticas dos aspectos cromossômicos, gonadais e fenotípicos que sustentam essa diferenciação. A distinção dos seres humanos entre pessoas do sexo masculino e feminino não é apenas uma convenção social. Apesar dessa diferenciação não ser sempre rígida ou absoluta, os fatores genéticos, hormonais e físicos que a sustentam influenciam diretamente o desenvolvimento humano.

Em segundo lugar, os desdobramentos culturais dessa distinção refletem uma organização simbólica das sociedades humanas que se desenvolveu em um contexto de relativa estabilidade e previsibilidade desses aspectos, principalmente o fenotípico — embora este esteja intrinsecamente relacionado aos dois primeiros (o cromossômico e o gonadal). Em outras palavras, a binaridade sexual, no seu sentido mais amplo, não é um conceito exclusivamente científico, visto que a percepção de que os seres humanos costumam nascer como machos ou fêmeas, e que isso implica em certas convenções sociais, é algo que perpassa todas as culturas humanas.

Por fim, reconhecer essa estabilidade biológica e suas repercussões sociais não significa invisibilizar aqueles cuja constituição fisiológica e/ou psíquica não se ajusta perfeitamente a tais parâmetros. Isso se aplica tanto à biologia — como no caso das pessoas intersexo — quanto às construções culturais sobre gênero, onde diferentes expressões de transgeneridade podem ser historicamente observadas em diferentes sociedades, não apenas nas ocidentais.

Isto posto, atentarei ao aspecto da cultura humana que serve de subsídio interpretativo para a psicologia analítica: os mitos. Comecemos por reconhecer que a presença de divindades que representam a fusão de aspectos masculinos e femininos é algo presente em praticamente todas as grandes tradições mitológicas — qualquer bom junguiano deveria ser capaz de citar ao menos um mito que comprove esta afirmação. Trago alguns exemplos: Ardhanarishvara (mitologia hindu): simboliza a fusão do masculino e do feminino em um único ser, representando a complementaridade e a interdependência dos gêneros, além da unidade primordial da existência; Ometéotl (mitologia asteca): divindade criadora do universo e a combinação das essências masculina (Ometecuhtli) e feminina (Omecihuatl), representando a dualidade presente em todas as coisas e a união de opostos complementares; Oxumarê (mitologia iorubá): orixá associado à renovação e ao ciclo da vida, é descrito em algumas tradições como alternando entre aspectos masculinos e femininos em ciclos de tempo, simbolizando a dualidade e a transformação.

As divindades acima — dentre tantas outras que poderiam ser citadas — possuem em comum não apenas a fusão do masculino e feminino em um único ser, mas também a união e a interdependência desses opostos como princípio arquetípico fundamental para a estabilidade dinâmica da própria existência (Oxumarê, por exemplo, costuma ser representado como uma grande serpente que sustenta o equilíbrio do mundo, garantindo sua continuidade).

Essa dinâmica também está presente no nível individual, na medida em que a integração de animus (princípio masculino) e anima (princípio feminino) é fundamental para a realização do self — arquétipo central da psique e princípio organizador da personalidade. Por essa perspectiva, o self pode ser visto como um reflexo do cosmos dentro da psique; uma manifestação microcósmica da totalidade do universo, razão pela qual Jung frequentemente o comparava a imagens de totalidade encontradas em diversas tradições religiosas e filosóficas, como o Atman no hinduísmo, o conceito alquímico da pedra filosofal ou a ideia de imago Dei (imagem de Deus) no cristianismo.

Sugeri em texto anterior que substituíssemos os termos masculino e feminino pelos conceito de animus e anima, como forma de evitar que tais discussões assumissem conotações ideologicamente carregadas. Contudo, é também necessário reconhecermos que a distinção entre masculino e feminino é uma constante antropológica, presente em praticamente todas as culturas conhecidas — algo relacionado ao fato de que a maioria dos seres humanos nasce com características sexuais que podem ser classificadas como masculinas ou femininas.

Isso também significa que, enquanto a ontologia que estrutura nossas concepções de gênero for baseada na polaridade masculino-feminino, qualquer identidade que busque se afastar dessas categorias ainda precisará referenciar-se nelas, mesmo que seja para negá-las ou subvertê-las. Estamos, assim, diante de um paradoxo: a tentativa de escapar do binário de gênero acaba reafirmando sua existência, pois a própria ideia de “não conformidade” só faz sentido dentro de uma estrutura que define previamente aquilo do qual se está se desviando.

A mitologia universal — entendida aqui como expressão de um inconsciente coletivo — aponta um caminho alternativo. O tema da integração dos opostos, quando analisado sob a luz da psicologia analítica, indica que a fusão do masculino e feminino enquanto princípio arquetípico não implica a anulação de suas diferenças, mas sim a capacidade de coexistir com essas tensões de forma criativa.

O desafio, portanto, não está em negar ou eliminar essa distinção, mas em permitir que ambas as forças dialoguem na construção de identidades que reconheçam sua interdependência, abrindo espaço para formas mais integradas e plenas de existência humana.

Referências

Brandt, K. A. (2023). The multiple meanings of sex. MDedge. https://www.mdedge.com/obgyn/article/266405/transgender-health/multiple-meanings-sex

Jung, C. G. (2011). OC 12 Psicologia e alquimia [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2013). OC 11 Psicologia e religião: ocidental e oriental [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2015). OC 9/2 Aion: estudo sobre o simbolismo do si mesmo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Jung, C. G. (2016). OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo [ePub]. Petrópolis: Vozes.

Ridgeway, C. L.; Correl, S. J. (2004). Unpacking the gender system: a theoretical perspective on gender beliefs and social relations. Gender & Society, 18(4), 510-531.

Scott, J. W. (1986). Gender: A Useful Category of Historical Analysis. The American Historical Review, 91(5), 1053-1075.

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Mal-entendidos Contemporâneos: A Psicologia Analítica Diante das Novas Leituras de Gênero

≈ Por Márcio N. de Abreu – 30 de janeiro de 2025

Em tempos de contestações acaloradas sobre o binarismo tradicional nas concepções de sexo e gênero, a noção junguiana de que a psique humana é constituída por princípios masculinos e femininos passou a ser considerada uma heresia. A veemência com que certos grupos passaram a repudiar essa ideia deve-se, em grande parte, ao desconhecimento acerca do significado atribuído a determinados termos na psicologia analítica. Assim, é fundamental esclarecer que, pela perspectiva junguiana, ao falarmos em “masculino” ou “feminino”, não nos referimos a características inerentes e definidoras do que significa ser homem ou mulher como categorias biológicas ou sociais, mas sim a qualidades psicológicas que, além de complementares, são comuns a todas as pessoas, independentemente de como se classifiquem quanto ao seu gênero ou sexo.

Uma forma de atenuar as tensões que permeiam esse debate — e, com isso, favorecer uma maior abertura ao tema — é deslocar o foco dos termos “masculino” e “feminino”, carregados de conotações ideológicas, para os conceitos de animus e anima. Esse deslocamento nos permite traçar uma breve genealogia que nos ajude a compreender, ainda que parcialmente, como esses conceitos estão relacionados na teoria de Jung.

Tanto animus quanto anima derivam da mesma raiz protoindo-europeia, reconstruída como ane, que significa “respirar” — não apenas como um fenômeno fisiológico involuntário, mas como a própria fonte ou princípio da vida. Apesar de compartilharem uma origem comum, seus significados específicos se diferenciaram ao longo do tempo. Enquanto anima manteve uma conexão mais direta com o conceito de “alma” — ou o “sopro vital” que anima o corpo —, animus passou a estar associado a um princípio pensante, associado à consciência, ao intelecto e à vontade.

No contexto das concepções fundamentais da cultura latina, bem como das tradições filosóficas e espirituais subsequentes, animus e anima podem ser relacionados ao conceito de corpus para expressar as interrelações entre as dimensões mentais, emocionais, espirituais e materiais da experiência humana. Na filosofia latina e medieval, especialmente sob a influência de autores como Cícero (106 – 43 a.C.), Santo Agostinho (354 – 430) e Tomás de Aquino (1225 – 1274), anima, animus e corpus eram frequentemente vistos como complementares, mas distintos: o corpus, entendido como o corpo físico cuja vitalidade depende da anima, que anima a matéria, e que, por sua vez, expressa as capacidades intelectuais e volitivas associadas ao animus.

A raiz comum de animus e anima sugere a constituição de uma essência vital que imbui os corpos humanos de vida e direciona essa vida por meio da integração das dimensões racionais, espirituais e emocionais, refletindo seus influxos complementares para além das distinções sexuais. Embora esses conceitos tenham sido respectivamente reinterpretados por Jung como princípios “masculinos” e “femininos” no inconsciente, ele preservou a ideia de complementaridade ao reconhecer a psique humana como andrógina. Para Jung, a psique não possui características exclusivamente femininas ou masculinas, mas é um sistema integrado que inclui em sua totalidade os conjuntos de capacidades e forças de animus e anima. Jung não via animus e anima como características exclusivas de um sexo, mas sim como princípios arquetípicos que emergem na psique individual de maneira diferenciada.

Por outro lado, essa diferenciação se baseia em processos psicossociais que moldam a identidade de gênero e a construção do eu. Ao longo da história, valores culturais influenciaram a socialização de meninos e meninas de maneiras distintas, reforçando a associação entre predisposições psicológicas e os papéis de gênero. Embora essas predisposições sejam comuns a ambos, elas passaram a ser interpretadas como características intrínsecas e exclusivas de homens e mulheres. Isso, por sua vez, influencia a forma como características inconscientes são projetadas: os homens, ao reprimirem ou negarem sua dimensão emocional e intuitiva, podem projetar sua anima em figuras femininas externas, ao passo que as mulheres, ao reprimirem ou negarem sua assertividade e racionalidade, podem projetar seu animus em figuras masculinas.

Por essa perspectiva, a associação do animus ao masculino e da anima ao feminino não é necessariamente essencialista, mas sim uma consequência de um longo processo histórico e cultural que moldou a forma como as diferenças sexuais são simbolicamente representadas. Na psicologia junguiana, esses conceitos não são fixos, mas podem ser integrados ao longo do desenvolvimento psíquico, permitindo que os indivíduos transcendam as dicotomias tradicionais e alcancem um equilíbrio entre racionalidade e intuição, atividade e passividade, estrutura e fluidez.

Por fim, essas considerações não encerram a discussão. Ainda há muito a ser explorado sobre as relações entre aspectos biológicos, psíquicos e sociais que explicam por que certas qualidades, denominadas “masculinas” e “femininas”, costumam ser simbolicamente associadas a homens e mulheres, respectivamente. No entanto, esse é um tema para outro momento.

Referências

Harper, D. Online etymology dictionary, 2024. Disponível em: https://www.etymonline.com.

Rezende, A. M.; Bianchet, S. B. Dicionário do latim essencial. Belo Horizonte | São Paulo: Autêntica, 2014.

Cícero, M. T. Discussões tusculanas. Uberlândia: EDUFU, 2014.

Agostinho, S. A alma e sua origem, 2018. Disponível em:

https://www.valde.com.br/public/fileadmin/user_upload/A-alma-e-sua-origem_-Santo-Agostinho.pdf.

Aquino, S. T. Suma Teológica, 1936. Disponível em:

https://alexandriacatolica.blogspot.com/search/label/S.%20Tomas%20de%20Aquino.

Jung, C. G. OC 9/2 Aion: estudo sobre o simbolismo do si mesmo. Petrópolis: Vozes, 2015.

Jung, C. G. OC 6 Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2015.

Jung, C. G. OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.